Chegara de viagem. Chovia. Buscou as malas no carro assim mesmo. Correu pro banheiro a tomar banho. Voltou, desfez as malas. Pôs-se a ligar para eles, mas não atendiam. Rede ocupada. Caixa postal. Rede ocupada. Tum... Tum... Tum... Rede ocupada. Rede ocupada. Desistiu. Ligou a TV. Largou-se na cama, o corpo reclamando o cansaço. Haviam dito seria às 18h, já passava das 19h. Tentou mais uma vez. Rede ocupada. Rede ocupada. Deixou-se estar largada – o corpo pedia descanso. O telefone tocou. Seria às 20h, como antes planejado, se haviam antecipado não sabia. Então, às 20h. Mas precisava confirmar. Ligou novamente. Rede ocupada. Rede ocupada. Lembrou-se de mandar mensagem: nao consigo falar c vcs, assim q chegarem, por favor, deem um toque. xero. Ele retornou. Viria buscá-la entre as 20h e as 20h30. Foi arrumar-se. Sentou no sofá da sala, esperando. O telefone não tocava. Voltou ao quarto, sentou na cadeira. Procurou algo com que se entreter. Achou qualquer coisa para ler. Começou, não conseguiu sair da quarta linha. Pegou o violão. Desistiu. Olhou no telefone, eram 20h50. A essa altura se dependurava na janela a ver os carros passar, procurando reconhecer o dele. Nada. Não é vermelho, nem é sedan, nem caminhonete, nem deve seguir direto na pista. Reparava nos carros em que a seta indicava a esquerda. 21h05. Viu o modelo compacto azul marinho fazer a curva. Levantou-se. Esperou o telefone tocar. Não tocou. Não devia ser ele. Virou-se a olhar de volta pela janela e viu outro compacto azul marinho virar a esquina. Quando olhou de novo, viu outro, e mais outro, e mais dois, e cinco, 12, dúzias deles com suas setas piscando em sincronia, indicando a esquerda e virando à esquina. Como um exército organizado, em marcha para uma batalha, avançavam tensos em sua velocidade baixa, à espreita do movimento inimigo. Todos em fila a virar a esquina.
Quando o telefone tocou, já não podia atendê-lo.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Arrasada, acabada, maltratada, torturada
minha primeira audição com o Cello foi__________
Desprezada, liquidada, sem estrada pra fugir
Sente um frio na costela e uma ânsia de sumir
ontem o dia foram dois
e meu porto seguro foi, mais uma vez, meu inferno.
Desprezada, liquidada, sem estrada pra fugir
Sente um frio na costela e uma ânsia de sumir
ontem o dia foram dois
e meu porto seguro foi, mais uma vez, meu inferno.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Terçã por Tiersen
Que nada, a febre é mesmo diária. E é vermelha, vermelho cor de sangue, sangue de minha mãe que já amava antes de mim. Sua vontade de aprender o acordeón se tornou retroativa e em mim causou essa paixãoadmiração que venho alimentando por um cara, conhecido meu de pouco, uma francês chamado Yann Tiersen. Nos últimos ensaios Regina vinha colocando como fundo musical um acordeón que eu sabia francês. Lindo. Vontade que dava de parar tudo pra só ouvir aquilo. Daí fui procurar no youtube (a quem sempre recorro nessas horas) músicas francesas executadas com acordeón, assim, sem objetivo definido. Achei um vídeo de dois caras num bar (super barulhento!), um tocando violino, outro tocando o acordeón, no meio daquela muvuca mas como se sozinhos. Barulho à parte, me apaixonei. A música era La Valse d´Amélie. Enfim, há uns dias venho enlouquecendo ouvindo a sonoridade maravilhosa de suas composições e de seu instrumento - o qual não tenho a mínima vontade de aprender, diga-se de passagem. É, sim, dos que mais gosto de ouvir, mas não me vejo tocando, relação contrária a que tenho com o cello. E por falar em cello, o meu vou buscá-lo na terça (uma terça terçã, 16, aniversário de minha mãe) e digo mesmo: já fiz o download da partitura de Amélie. Mas, ah, se toco...
os caras no bar:
http://www.youtube.com/watch?v=9jHT2yjvBo0
os caras no bar:
http://www.youtube.com/watch?v=9jHT2yjvBo0
domingo, 31 de outubro de 2010
Agreste (Malva-rosa)
de Newton Moreno, trechos
Quieta. A noite parecia uma pergunta difícil.
É muito triste uma mulher comendo
e chorando.
Não entendia
a morte. Não entendia homem. Naquele
momento, só entendia a perda.
Incomodou-a estar só.
Queria cantar para ouvir alguém.
Não sabia se Jesus estava com ela ou não.
Tinha Deus como uma certeza, mas às vezes achava
que Deus podia aparecer, tomar um café, enrolar
um fumo. Ficar mais íntimo. [...]
Olhe, Música e Deus ninguém vê.
Mesmo assim, a viúva acendeu o candeeiro.
Viu-se por inteiro pela primeira vez. Descobriu
então o que era mulher.
Cruel, a natureza é
Dá o sol na desmedida
Dá um corpo na desmedida
Dá o amor na desmedida.
Quieta. A noite parecia uma pergunta difícil.
É muito triste uma mulher comendo
e chorando.
Não entendia
a morte. Não entendia homem. Naquele
momento, só entendia a perda.
Incomodou-a estar só.
Queria cantar para ouvir alguém.
Não sabia se Jesus estava com ela ou não.
Tinha Deus como uma certeza, mas às vezes achava
que Deus podia aparecer, tomar um café, enrolar
um fumo. Ficar mais íntimo. [...]
Olhe, Música e Deus ninguém vê.
Mesmo assim, a viúva acendeu o candeeiro.
Viu-se por inteiro pela primeira vez. Descobriu
então o que era mulher.
Cruel, a natureza é
Dá o sol na desmedida
Dá um corpo na desmedida
Dá o amor na desmedida.
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