segunda-feira, 14 de maio de 2012

O filósofo de férias sentado na cadeira de praia à luz da lua me fez escrever

E a solução, mesmo ilusória, é essa - outra pessoa. Alguém onde a gente possa pendurar dois ou três significados, diz Honório, no livro de Myriam Campello. E quando a gente não encontra esse alguém, deve seguir na ilusão ou resignar-se? Tenho sido acusada, com uma frequência que havia reduzido, de uma não superação do que já foi, como coisa que fosse assim, em cada esquina encontrar-se uma "alminha" daquelas. Pois a você que me acusa, eu vou te contar que você não me conhece. E muito me aborrece tudo isso. Francamente, tá difícil. Os instintos gritam, reclamam, e abafam a concentração do que me é obrigação fazer. Entre leituras, entre um parágrafo e outro penso no futuro que a vida e as decisões práticas (que aparecem tão assustadores para mim) vão assegurar. Penso em mudar as rotas, guiada pela bússola da minha eterna insegurança. Quantos caminhos abandonados pela metade? Sempre puxada por outro que me pareceu mais atraente - também neles me dei bem, mas nunca foram suficientes. O que é isso que me move? Será o movimento apenas mais uma característica humana, como disse a escritora? Eu me movo? Nada me apraz. Alguém escapou? Grita o ator. Eu falo e não gosto do que ouço. Queria ter ao menos esse humor ferino da escritora, já que o sentido das coisas... Me falta alguém em quem pendurar dois ou três significados. Enquanto isso, é sorver o café com leite e pão de queijo lá d'acolá.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

a la Chanel

Por muito tempo, meu cabelo foi minha "marca registrada", ponto de referência. Há quase quatro anos, depois de algumas mudanças, simplesmente deixei que os fios crescessem naturalmente, como são, até o ponto em que eu podia ser identificada primordialmente pela vasta cabeleira cacheada e "arruivada" que fazia de mim, pobre menina magricela, algo de maior, algo de mulher, mulher-leoa, como o signo. E fiquei assim por um bom tempo, mas sempre com a vontade - na cabeça! - de um dia cortá-lo o mais curto que pudesse. Nunca o fiz, acho que não combina com meu rosto, nem com a minha magreza. Talvez como Sansão, a ausência das madeixas omitisse a minha força ou, no mínimo, me deixasse ainda mais insegura comigo mesma e com meu corpo do que já sou. Que um corte pudesse cortar também todo o avanço que alcancei rumo a adulta-idade.
Bem, ontem eu cortei meu cabelo. Ficou curto, acima do ombro, como outrora já o tive. E para a minha surpresa, essa nova moldura, como dizem, não dissipou a expressão que o meu rosto adquiriu com as últimas experiências. Ainda está lá - ainda estou lá!
E, usando as referências das cores em que venho pensando, cabelo nenhum me levará de volta à infância-amarela, agora que sou juventude-azul.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Marguerite Yourcenar

contextualizada


Devo cada um dos meus gostos à influência dos amigos que encontro, como se não pudesse aceitar o mundo senão através da mediação humana. Tenho de D. o gosto pelos musicais, de R. e F. o gosto pelo cinema, de V. o gosto pelo azul, de A. o gosto pela simplicidade das coisas. Porque ter de ti o gosto pela morte?

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Bukowski

Charles


there are worse things than

being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Campos

Álvaro de


Estou só, só como ninguém ainda esteve,

Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que o seu passo seja leve.

Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li.
Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi.

Não ser nada, ser uma figura de romance,
Sem vida, sem morte material, uma ideia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.