quarta-feira, 31 de julho de 2013

Da oficina de dramaturgia ministrada por Marcio Abreu - exercício dramatúrgico (em edição, talvez nunca termine, talvez termine em cena)

PRÓLOCUS

.      Eu, artista, fiz esse quadro e coloquei aqui, no centro do mundo. Podendo também, claro está, ter dito: “fiz esse quadro e o coloquei ali”, e ali também seria o centro do mundo.
.      O quadro é este que veem: circular, aformo; de seu meio espirram, em direção às bordas, gotas de tinta da cor que quiserem. E tudo o que virá a seguir será a partir dele.  





DEPOIS QUE ANOITECI

.      Pois, era o princípio. Tinha começado, enfim. Não bastaram todos aqueles 22, o começo era agora.
A última vez já não contava mais.
A 17, talvez nunca tenha contado.
A 19, nem existiu.
.                        (Que bom, pensou)

Como se não houvera um ontem,
como se ineditamente tivessem acabado de inventar o tempo, era agora que tudo começava, como tudo inicia pelo princípio
de todas as coisas.


ESTREIA

Boom! NASCEU. Cheia de braços e pernas. NASCEU.
O tronco em toda a sua elegância.
NASCEU.
Com o seu terceiro sexo. NASCEU. NASCEU, NASCEU, sim, NASCEU.
Mas nasceu faltando a cabeça.
(Onde lhe arranjariam uma cabeça?)
Cabeça-cabeça. Cabeça-pescoço. Cabeça-cabeloucareca.
Uma que acompanhe: 2 auditores; 2 ventosas; 2 oculares; 1 devorante.

Devorante,
ser-corpo
até.


EM BUSCA DOS SETE ORIFÍCIOS

.       Foi a mãe torta quem disse: ide e buscai os teus sete orifícios, ser-corpo, para seres em todos os sentidos.

.       Semicolcheias, duas, em dois lugares aleatórios da sua não-cabeça;
.       Orquídea e maresia que exalassem, assim mesmo, em lugar de ventosas que de fora para dentro sentissem de dentro para fora;
.       Faróis trazidos da Barra, de Lanzarote*, de Cabo Branco ou do mar aberto. Escolheu também dois desses e os pôs à frente, como guias;
.       Do espaço, um buraco negro, com o qual tudo devorou dali por diante.

     


AO CABO

Era agora 34
de 29.

[Luz crepuscular ilumina todo o espaço
OU
Luz que sugira o amanhecer do dia ou de um minuto qualquer, tanto faz. Mas estamos naquele momento do dia em que, como diziam os avós, a natureza muda de guarda e não há quem nos proteja. É aquela hora de transição, em que o passo seguinte vai dar. Um meio do caminho, um entrelugar, uma indefinição. É aqui onde aquilo que tudo começou, lá no princípio de todas as coisas, deve terminar.]


[A não ser que inventem um outro final pra essa história.]  



EPÍLOCUS

.        E como quase nunca nos é permitido decidir sobre o começo das coisas, de todas elas, que possamos ao menos mudar o final – de uma delas. Digamos que o nosso ser-corpo, quase completo, conseguiu sair do entrelugar em que o haviam colocado e

.                                                                      foi viver numa casinha caiada de janelas azuis lá na beirada de um lugar que não conhecemos, porque não nos foi dada a informação, nem o será. Torcemos para que, na sua incompletude, o ser-corpo viva em paz e não volte a partir

em mais nenhum pedaço.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Que assim seja

E numa tarde dessas, quando o pai, na sua gravidade, estiver perdido nos pensamentos, eu vou caminhar na sua direção e sentar bem perto dele e puxar sem constrangimento a conversa que nunca tivemos. É assim que será, e mais tudo de bom que há de vir depois.

André, personagem de Lavoura Arcaica, o filme.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Um registro, por favor

de algo bom que ouvi hoje.
[E finalmente um post realista, não romântico!]

Última aula de Estudos e Práticas da Palavra, [inspiradora] disciplina cursada neste primeiro semestre do Mestrado em Artes Cênicas. Após uma série de textos escritos e compartilhados, vocalizados e performados com colegas e professora, num de nossos últimos exercícios, lemos, cada um, um texto de um colega anônimo, dos que produzimos ao longo dos encontros. Da leitura do meu, ouvi o seguinte comentário: que fosse o texto, este ou outro qualquer, lido por qualquer outra pessoa, ainda assim se ouviria a minha voz, por que tenho uma sensibilidade muito particular e reconhecível. 

Abaixo, um breve "perfil do autor" que o leitor, no caso, um colega, teve que escrever a partir do texto lido.
PS: Não foi a mesma pessoa que fez o comentário que transcrevi acima.


sábado, 13 de julho de 2013

Donde o título deste sítio

Pra onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, 
e depois o pai ria: também pra lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.

HH

sábado, 1 de junho de 2013

Classificados

'(...)
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui'


Paulo Leminski, Amar você é coisa de minutos...